Fundador de instituto para menores está na luta pelo prêmio Nobel

por Herculano Barreto Filho

Carlinhos Pró-Menor comenta indicação ao Prêmio Nobel

A lista latino-americana de candidatos ao Prêmio Nobel da Paz de 2010/2011, encabeçada pela indicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também é composta por brasileiros que estão longe dos holofotes, mas são capazes de mudar a vida de milhares de pessoas. É o caso do suboficial da Aeronáutica Carlos Roberto dos Santos, fundador do Instituto Pró-Menor. O órgão, que atua em 18 estados, ajudou na formação profissional de mais de 20 mil jovens carentes. O Nobel da Paz será anunciado na sexta-feira, em Oslo, na Noruega. É a mesma premiação ganha ano passado pelo presidente Barack Obama.

 

Infância pobre

As iniciativas de Carlos Roberto dos Santos ganharam projeção em setembro do ano passado, quando ele figurou numa lista dos dez maiores empreendedores sociais do Brasil, apresentada pela Federação da Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp). Mas o trabalho feito com menores não é de hoje. Com 24 anos de existência, o instituto ganhou a cara do seu idealizador, que confunde a própria identidade com o trabalho social.

Conhecido como Carlinhos Pró-Menor, o suboficial da Aeronáutica, que também é formado em Pedagogia, idealizou o programa a partir da sua história de vida. Ele nasceu na pacata Cataguases, no interior de Minas Gerais, e se mudou para o Rio com os pais e o irmão mais novo quando ainda era bebê. A família morava num barraco na favela Nova Holanda, em Bonsucesso, quando a sua mãe morreu.

Com a morte dela, o pai entregou os filhos a uma vizinha, dizendo que os buscaria em uma semana. Mas nunca cumpriu a promessa. Sem condições de criar os irmãos, ela entregou a custódia deles à antiga Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (Funabem). Lá, Carlinhos cresceu sem saber das suas origens.

 

Mudança de rumo

Nem a data de seu nascimento era correta. Pantera, apelido de infância, comemorou o aniversário em novembro até os 17 anos, quando descobriu que tinha nascido, na verdade, em 18 de março de 1959.

Quando menor, colecionou fugas dos orfanatos para usar drogas com os colegas. Mas a sua vida mudou de rumo quando ele foi aprovado na Escola de Especialistas da Aeronáutica. Carlinhos obteve uma das 500 vagas ao se classificar em 20 lugar no curso, disputado por 35 mil candidatos de todo o país. Dois anos depois, formou-se sargento e voltou à Funabem para visitar os internos. Lá, tomou uma importante decisão: dedicar a vida à educação de jovens carentes.

 

– A educação mudou a minha vida. Quando percebi que poderia mudar a vida de outras pessoas, decidi que iria dedicar parte da minha vida na recuperação desses garotos. Se eu consegui, eles também podem – disse ele.

 

Inspiração em Obama para sonhar com o improvável

Uma volta por cima, uma guinada na vida mesmo quanto tudo parece fadado ao fracasso. Carlinhos se inspira no presidente Barack Obama ao sonhar com o Nobel (o americano ganhou prêmio no ano passado), principalmente porque ele fez história quando muitos duvidavam.

As lembranças da família fazem com que o ritmo das frases de Carlos Roberto desacelere. E que a sua expressão, normalmente entusiasmada, dê lugar a um ar contemplativo. De repente, Carlinhos desvia o olhar e conta, com a voz engasgada, do reencontro com a vizinha que o entregou à Funabem.

– Até aquele momento, eu achava que era sozinho no mundo – conta ele.

Na época, Carlinhos tinha 17 anos e passou um período de férias na favela Nova Holanda, em Bonsucesso. Lá, teve um reencontro emocionado com o irmão, um ano mais novo. E conheceu a pobre realidade vivida no local. Entregou todo o dinheiro que tinha no bolso à vizinha e trabalhou como papeleiro na comunidade. A casa da vizinha, lembra ele, tinha um cheiro fétido. Não havia banheiro no imóvel, infestado por mosquitos. Os dejetos eram jogados num valão próximo.

O resgate das suas origens motivou Carlinhos a se dedicar aos estudos para entrar na Aeronáutica.

– Os meus heróis eram malandros. Naquela época, eu usava cabelo black power e escondia um baseado atrás da orelha. Mas mudei o rumo da minha vida – conta.

 

Infância difícil

E fala com naturalidade sobre a infância difícil. No escritório do Instituto Pró-Menor, na Ilha do Governador, Carlinhos conta, sem maiores sobressaltos, sobre a época em que era espancado com relho e tapas pelos bedéis da Funabem. E ri ao contar que cantava a música “O meu guri”, de Chico Buarque, nessas ocasiões.

– Eu apanhava e era tratado como se não tivesse valor. Aí, fugia, usava drogas e era capturado mais uma vez. O que eu fazia não era diferente do que se vê hoje em dia entre os moleques de rua – afirmou o suboficial da Aeronáutica.

Por isso, Carlinhos faz questão, agora, de incentivar a educação nos projetos que desenvolve no Instituto Pró-Menor.

 


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